“Ao ritmo da liturgia dominical redescubro a vocação baptismal”

A Quaresma é um tempo propício para cultivar e fortalecer a fé. Tem uma dimensão positiva de apelo e interpelação sobre a vocação do ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, dignidade que o pecado destrói e só a graça pode restaurar. A Quaresma recorda que cada baptizado é peregrino a caminho da terra da promessa, peregrino até à glória da ressurreição. É o nosso caminho até à Páscoa. É uma caminhada de mudança, para que o nosso beatismo não fique para trás, algo do passado, mas antes uma presença constante, diante de nós, como o círio aceso na noite pascal. As leituras que a liturgia dominical oferece são verdadeiras catequeses baptismais, catequeses que pontuam o caminho que é necessário percorrer para se “fazerem novos cristãos”. Por isso são catequeses para os catecúmenos que se preparam para o beatismo, bem como para os baptizados que assim recordam e renovam os compromissos baptismais (cfr SC 109; AG 14).

O primeiro domingo da Quaresma apela à liberdade do baptizado. Aquele que pede o beatismo faz uma escolha e esta escolha deve ser em liberdade. Não olhemos para a tentação como ocasião de pecado: a tentação é a hora da escolha. As tentações não são em primeiro lugar ocasião de pecado, mas condição da liberdade humana. A nossa vocação de baptizados é, portanto, uma vocação na liberdade, liberdade para escolher, para optar. Em tempo de Quaresma, somos interpelados a fazer boas escolhas.

Cada comunidade, cada baptizado, cada agente de pastoral é chamado a percorrer este caminho de liberdade como processo de conversão a uma vida que experimenta e se renova no seguimento de Jesus. Só assim é possível fazer das paróquias autênticas comunidades de discípulos missionários identificados com Jesus.

É o primeiro domingo da Quaresma que dá o mote nesta proposta de Caminhada da Quaresma. Olhemos o Evangelho desse dia: após o beatismo (Mt 3, 13-16) «Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo Demónio. Jejuou quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome. O tentador aproximou se e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pães». Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus’» (Mt 4, 1-4).

A Palavra de Deus é a grande fonte onde vamos beber ao longo da Quaresma. Terá um lugar central não só na liturgia mas também nas propostas que são apresentadas para as famílias e para a comunidade cristã. O cristão é, por natureza, ouvinte da Palavra: a palavra pronunciada por Deus é capaz de dar resposta ao mais profundo da existência humana (K. Rahner). Ser “ouvinte da Palavra” significa deixar actuar a Palavra de Deus que é viva e eficaz (Heb 4,12), que não a nula a nossa liberdade mas nos abre a uma liberdade mais profunda que nos leva a ser actuantes.

O Evangelho de cada domingo será a fonte de inspiração para que, como baptizados, saibamos responder ao apelo de Deus e, diante das interpelações deixadas pelos gestos e palavras de Jesus, nos deixarmos conduzir pelo Espírito Santo na hora de escolher, de usar responsavelmente a liberdade. Os grupos paroquiais que estão a fazer a leitura orante da Palavra através da proposta diocesana “Jesus no Evangelho de Mateus” podem ter uma participação especial na preparação e dinamização desta caminhada.

Todas as propostas – e esta proposta em particular – são isso mesmo: propostas. Cada paróquia usará os materiais apresentados com as necessárias adaptações. São sugestões que procuram impulsionar uma pastoral de conversão, seja na liturgia, seja na catequese, seja no âmbito familiar, seja da vida paroquial em geral, como indica o nosso programa pastoral 2016-2017. São propostas que podem ser porta aberta para uma maior criatividade na preparação das celebrações e nas sugestões a apresentar a cada família, para que esta seja Igreja doméstica em estilo missionário, primeira escola onde se acolhe, vive, transmite e celebra a fé.

Fonte: Diocese de Aveiro.

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