Com a devida vénia … (In Voz portucalense)ALEXANDRINO BROCHADO

Quanto custa a missa? 

 Há tempos, numa das igrejas do Porto, fui procurado por um operário da construçãocivil a solicitar a celebração duma missa por alma dum familiar. Terminada a Eucaristia, o trabalhador dispara, à queima-roupa, esta pergunta: “Senhor Abade, quero pagar a missa, quanto custa?” Uma pequena frase que não encaixa no meu dicionário. A palavra “abade” e a palavra “custa”. A primeira palavra, abade, sinónimo de pároco, traz à minha memória o antigo pároco da minha aldeia, gordo, anafado, que pouco mais fazia que celebrar a missa. A palavra custa tem uma forte carga mercantilista, muito popular. Ao ouvir estas palavras, cem por cento de carácter económico, pensei que nos deveríamos situar numa linha de cariz espiritual e pôr de parte o deve e haver, do nosso meio, particularmente o rural. Assim se exprimiu e, por vezes, ainda se exprime o nosso povo, principalmente nas aldeias.
“Quanto custa a missa?” Assim se exprime o povo do meio rural, menos culto, sobretudo nas nossas aldeias. É difícil ultrapassar esta linha que parece roçar as fronteiras do sagrado e do divino. Talvez que, neste caso, os próprios sacerdotes, sobretudo como curas de almas, tenham alguma culpa por não saber, a tempo, corrigir uma linguagem que não é correcta nem admissível numa pessoa com boa ou razoável formação religiosa. Não me sai da mente aquela imagem do trabalhador enquanto fecha a carteira e, segurando-a com um atilho à volta, vai dizendo: “quero saber o preço da missinha”. Logo respondi: a missa não tem preço, meu caro amigo. O trabalhador, muito solerte, mete a carteira ao bolso, diz “muito obrigado” e, dá por terminada a sua missão!
A marca da fraqueza humana aparece em toda a parte. Temos de respeitar a fronteira do divino. O nível religioso dos portugueses é muito fraco. Não podemos olvidar a ausência e a passividade dos católicos portugueses e, até, a ineficácia de alguns dos educadores da fé. A nossa vida é uma luta sobre todos os aspectos. O nível cultural dos nossos católicos é semelhante ao dos soldados que estão de licença. Têm de estar sempre de malas aviadas e preparados, porque não sabem quando chega o momento de ter de se mobilizar e saltar para o campo da luta e ter de combater com denodo e coragem.

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