“Dai a César o que é de César…”

Eis uma das frases mais famosas, não mais importantes, do Evangelho. Foi ouvida em todo o mundo este fim-de-semana. Uma frase, tantas vezes tirada do contexto, distorcida até para defender pontos de vista muito de acordo com certos interesses.

As relações entre o chamado poder temporal e o poder espiritual, entre o mundo e a fé, geraram no passado e continuam a gerar hoje tensões enormes. Há quem pretenda transformar César em Deus e quem pretenda ver Deus (a Igreja) a conquistar as glórias de César.

No pós-25 de Abril, a Igreja, na sua generalidade, foi acusada de compadrio com o poder político, de se deixar manipular e de não ter tido uma intervenção activa, ou seja, de andar de mãos dadas com o regime e de ser cúmplice da guerra, da colonização, do analfabetismo. Traduzia-se assim uma atitude religiosa inerte e ultrapassada.

Chegou o derrube da regime, e, com ele, a Igreja, como toda a sociedade, também ela cúmplice em todo o processo, (será bom não esquecer!), toma outra atitude: mais intervenção, mais esclarecimento, mais presença no processo em curso, e, de imediato, se levantam vozes que clamam: a Igreja não tem que se meter em política; a Igreja que se meta na sacristia e cuide de “alimentar” as beatas. Algumas atitudes, intervenções e presenças são mesmo consideradas como afrontas ao poder instituído. Facilmente se verificou, e verifica, que se joga com um pau de dois bicos: há uma atitude quando interessa e outra quando não interessa. Quando convém, refere-se a “acção insubstituível” da Igreja na História; quando não convém,… logo se aponta a Inquisição.

Em que ficamos? Deve ou não deve a Igreja ter uma intervenção? Deve ou não meter-se em política? Tem ou não responsabilidades?

É evidente que a Igreja do Evangelho não pode e não deve desejar ressuscitar esquemas do passado, que apenas pertencem ao passado e fizeram, bem ou mal, a história do passado. O concílio Vaticano II refere com toda a clareza: “A Igreja caminha a par da humanidade, compartilhando da sorte terrena do mundo, e a sua razão de ser é actuar como fermento e como alma da sociedade que deve renovar-se em Cristo e transformar-se na família de Deus.” (G.S.n.º 40), e mais à frente, no n.º 76, diz-se: “A Igreja, em razão da sua missão e competência, não pode confundir-se, de modo nenhum, com a comunidade política, nem está ligada a nenhum sistema político: ela é, ao mesmo tempo sinal e salvaguarda da dignidade da pessoa humana. No terreno que lhes é próprio, a comunidade política e a Igreja são independentes e autónomas. Mas ambas, embora a títulos diferentes, estão ao serviço da vocação pessoal e social dos mesmos homens. Exercerão tanto mais eficazmente este serviço para bem de todos, quanto mais cultivarem entre si uma sã cooperação, tendo em conta as circunstâncias de lugar e tempo”.

O que a Igreja, como instituição, não pode é fazer uma política partidária, mas tem de ser, sob pena de se atraiçoar a si própria e ao projecto do seu Fundador, defensora dos mais pobres e oprimidos, seja qual for a forma por que se manifestem as injustiças, as opressões e o domínio dos poderosos, e denunciadora, sem reticências nem cobardias, da corrupção económica, social ou política, mesmo quando apresentadas com as vistosas capas da promoção humana ou do desenvolvimento. Para tal, devem os cristãos, individualmente e em grupo, estar atentos; devem os cristãos imbuir os espaços da vida social, política e cultural com a sua presença activa, com o testemunho desempoeirado de uma vida desinstalada e sem caça ao poder. Isto será um cristianismo praticante, cristianismo que traz para a vida aquilo que proclama e celebra nas igrejas.

A posição de Jesus foi clara: Ele não vem resolver questões políticas, mas vem para que se renove o coração do homem e, a partir daí, se faça nova toda a história. A Igreja não tem soluções políticas; têm, isso sim, propostas baseadas nos princípios e valores que conduzam o homem a uma realização plena, no total respeito por si próprio e pelos outros.

Desta forma, será incorrecto que a Igreja, no seu todo, proponha soluções concretas, mas será igualmente incorrecto que os cristãos, como cidadãos, se desinteressem da vida social, cultural e política, sob o pretexto de que a Igreja é apolítica, e que a religião se vive dentro das paredes dos templos. Se isto acontecer, é sinal de que o cristão deixou de ser fermento de transformação, sal que evita a corrupção e luz que ilumina os caminhos do Homem. (P.C.L.)

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